Quando a gente se conheceu eu nem sabia quem eu era. Eu sabia me enganar, treinei bastante durante toda a vida por não saber meus gostos, meus rumos, por querer tudo e, ao mesmo tempo, não ter nada. E eu era assim, vazia, triste, incompleta. Não era infeliz. Quem me conhece sabe que é impossível uma pessoa que sorri com o cheiro da primavera ser infeliz. Eu era um pedaço de quem eu sou hoje, mas bem apagadinho. Eu era maluca, gostava de dançar e beber, gritar e arrotar. Mas tudo isso eu era escondido. Com a Lari, por exemplo. Meu choro, minha solidão e o meu vazio também eram escondidos. De mim.
Nessa época eu nunca pensava que iria encontrar alguém que soubesse dividir a felicidade de ver um cachorro, um gato, um passarinho ou um casal de velhinhos no meio da rua comigo que, como uma criança, grito e aceno para os bichos ou, quem sabe, ver graça em roubar flores tóxicas do vizinho e fazer chá ou, quem sabe, ver graça em uma combinação rosa pink com verde, ver graça em turbantes ridículos ou ver graça... em mim. Nunca pensei que tinha outra pessoa no mundo – maluca para os outros – que não teria vergonha de dançar comigo uma música gostosa, ao vivo ou até de elevador, enquanto todos os outros estão sentados no bar ou vagando pelos shoppings procurando um rumo em meio ao mármore e ao consumo.
Não pensei que alguém seria o suficientemente maluco e inquestionavelmente puro e verdadeiro para se apaixonar a primeira vista, durante um atendimento, do jeito – sim, por favor – mais clichê e cafona do mundo, logo por mim e ainda ter a coragem de me deixar o seu cartão da loja e um elogio, sobre tatuagens, ou o que fosse.
E eu juro que eu percebi ali naquela hora que era diferente o cara que escreveu o seu nome no cartão da Fernanda Barbosa Romão de caneta Bic preta, por que ele não gosta muito da azul, caneta que provavelmente estava com o clipe da tampa encaixada no colarzinho que segura o crachá que eu vejo todos os dias e que começou a nossa história, um Samuel sem sobrenome do setor de livros de aventura que era amigo do Rafa, que era namorado do Carlos, que era meu colega de jornalismo, que chegou na segunda-feira dizendo que tinha um amigo apaixonado por mim.Me assustei e temi, inclusive, pela vida do jovem vendedor. Parece brincadeira, mas para mim foi terrível pensar que o moço barbudo, bonito e simpático do setor de aventuras pudesse sofrer pelas minhas péssimas escolhas e crenças congeladas. A minha inércia falou mais alto em um dos momentos da minha vida em que eu mais queria fugir. Eu fui comprar um livro para dar de presente de natal, em dezembro de 2007, e ganhei a melhor surpresa de toda a minha existência.
Não vou dizer que eu não ansiei pela tua chegada, não vou mentir dizendo que não acreditava que tu existia, não vou fingir dizendo que não olhei pra cima um dia no céu bem escuro e não te pedi. Mesmo assim eu tinha uma leve aposta de que eu nunca iria te encontrar e que, sendo assim, nunca seria plena.
É por isso que eu acho ótimo ter passado por aquela fase, quando eu não sabia o que era ser eu, nem sabia quem era Gabriela, nem queria ser nada. Eu fui comprar um livro, que eu nem levei, e te achei por entre as prateleiras, com o teu sorriso perfeito e as tuas palavras doces (desde o primeiro dia!), com a tua admiração explícita e com o teu carinho extasiante. E eu nem sabia disso tudo. Mas consigo ver que foi bem assim. Eu não esqueço e nunca vou esquecer do que eu já poderia ter esquecido antes de saber que a gente seria um do outro.
E mesmo quando a gente nunca mais se falou nos cinco meses seguintes, quando eu fugi de ti no Porão do Beco te achando muito lindo e muito louco e muito a minha alma gêmea de longe, mas ainda com muito medo, eu sabia da tua existência pelo Carlos e pelo Rafa. Sabia que tu também queria saber de mim. Sabia que alguma coisa aconteceu ali naquele dia, em um daqueles finais de semana de dezembro de 2007 e que foi ali que a minha vida começou a mudar.
Depois de cinco meses, quando não tinha mais risco de vida, e acho que tu ficou sabendo, um convite para um café chegou a mim. E eu aceitei. Mas não fui. E tu me odiou. E eu me odiei. Deus sabe o quanto eu me odiei por não saber o que dizer, por querer dizer que queria, por ter o conjunto confusão mental no sobrenome. Acho que ainda não era a hora certa, infelizmente. Mas acho que a nossa hora certa foi linda e não poderia ter sido mais certa.
Um café que a gente não foi tomar juntos e quase que toda a nossa vida poderia ser diferente de hoje. E foi, durante mais sete meses. Um café que eu não repenso durante sete meses e talvez eu nunca pudesse sentir o teu cheiro, sentir a textura da tua pele e dos teus pelos, sentir o que eu sinto hoje que é essa ânsia de saber que tu existe e só. Hoje as nossas energias se completam para o bem. Não um bem, mas vários e inúmeros bens que são de puro amor.
Amanhã, meu amor, fazem oito meses do dia mais lindo da minha vida. Brigada!

