14/10/2009

Amanhã, meu amor.

A Lari acordou antes de mim, eu acho, já faz um tempão considerando a minha linha de tempo pessoal. Nem sei se a gente almoçou em casa, se ia comer no shopping. Acho que a Tia Maria Isabel fez uma massa para nós. Acho que tinha queijo. Mas isso não importa. Outra coisa que também não importa era a roupa que eu estava usando. Ia de chinelos de pneu, calça jeans e um vestido velho que a minha mãe usava para fazer faxina e ficar em casa que eu resgatei e comecei a usar como maxi-regata. Não importa também o livro que a Lari queria encomendar e que nos fez ir até a Cultura.

Quando a gente se conheceu eu nem sabia quem eu era. Eu sabia me enganar, treinei bastante durante toda a vida por não saber meus gostos, meus rumos, por querer tudo e, ao mesmo tempo, não ter nada. E eu era assim, vazia, triste, incompleta. Não era infeliz. Quem me conhece sabe que é impossível uma pessoa que sorri com o cheiro da primavera ser infeliz. Eu era um pedaço de quem eu sou hoje, mas bem apagadinho. Eu era maluca, gostava de dançar e beber, gritar e arrotar. Mas tudo isso eu era escondido. Com a Lari, por exemplo. Meu choro, minha solidão e o meu vazio também eram escondidos. De mim.

Nessa época eu nunca pensava que iria encontrar alguém que soubesse dividir a felicidade de ver um cachorro, um gato, um passarinho ou um casal de velhinhos no meio da rua comigo que, como uma criança, grito e aceno para os bichos ou, quem sabe, ver graça em roubar flores tóxicas do vizinho e fazer chá ou, quem sabe, ver graça em uma combinação rosa pink com verde, ver graça em turbantes ridículos ou ver graça... em mim. Nunca pensei que tinha outra pessoa no mundo – maluca para os outros – que não teria vergonha de dançar comigo uma música gostosa, ao vivo ou até de elevador, enquanto todos os outros estão sentados no bar ou vagando pelos shoppings procurando um rumo em meio ao mármore e ao consumo.

Não pensei que alguém seria o suficientemente maluco e inquestionavelmente puro e verdadeiro para se apaixonar a primeira vista, durante um atendimento, do jeito – sim, por favor – mais clichê e cafona do mundo, logo por mim e ainda ter a coragem de me deixar o seu cartão da loja e um elogio, sobre tatuagens, ou o que fosse.

E eu juro que eu percebi ali naquela hora que era diferente o cara que escreveu o seu nome no cartão da Fernanda Barbosa Romão de caneta Bic preta, por que ele não gosta muito da azul, caneta que provavelmente estava com o clipe da tampa encaixada no colarzinho que segura o crachá que eu vejo todos os dias e que começou a nossa história, um Samuel sem sobrenome do setor de livros de aventura que era amigo do Rafa, que era namorado do Carlos, que era meu colega de jornalismo, que chegou na segunda-feira dizendo que tinha um amigo apaixonado por mim.

Me assustei e temi, inclusive, pela vida do jovem vendedor. Parece brincadeira, mas para mim foi terrível pensar que o moço barbudo, bonito e simpático do setor de aventuras pudesse sofrer pelas minhas péssimas escolhas e crenças congeladas. A minha inércia falou mais alto em um dos momentos da minha vida em que eu mais queria fugir. Eu fui comprar um livro para dar de presente de natal, em dezembro de 2007, e ganhei a melhor surpresa de toda a minha existência.

Não vou dizer que eu não ansiei pela tua chegada, não vou mentir dizendo que não acreditava que tu existia, não vou fingir dizendo que não olhei pra cima um dia no céu bem escuro e não te pedi. Mesmo assim eu tinha uma leve aposta de que eu nunca iria te encontrar e que, sendo assim, nunca seria plena.

É por isso que eu acho ótimo ter passado por aquela fase, quando eu não sabia o que era ser eu, nem sabia quem era Gabriela, nem queria ser nada. Eu fui comprar um livro, que eu nem levei, e te achei por entre as prateleiras, com o teu sorriso perfeito e as tuas palavras doces (desde o primeiro dia!), com a tua admiração explícita e com o teu carinho extasiante. E eu nem sabia disso tudo. Mas consigo ver que foi bem assim. Eu não esqueço e nunca vou esquecer do que eu já poderia ter esquecido antes de saber que a gente seria um do outro.

E mesmo quando a gente nunca mais se falou nos cinco meses seguintes, quando eu fugi de ti no Porão do Beco te achando muito lindo e muito louco e muito a minha alma gêmea de longe, mas ainda com muito medo, eu sabia da tua existência pelo Carlos e pelo Rafa. Sabia que tu também queria saber de mim. Sabia que alguma coisa aconteceu ali naquele dia, em um daqueles finais de semana de dezembro de 2007 e que foi ali que a minha vida começou a mudar.

Depois de cinco meses, quando não tinha mais risco de vida, e acho que tu ficou sabendo, um convite para um café chegou a mim. E eu aceitei. Mas não fui. E tu me odiou. E eu me odiei. Deus sabe o quanto eu me odiei por não saber o que dizer, por querer dizer que queria, por ter o conjunto confusão mental no sobrenome. Acho que ainda não era a hora certa, infelizmente. Mas acho que a nossa hora certa foi linda e não poderia ter sido mais certa.

Um café que a gente não foi tomar juntos e quase que toda a nossa vida poderia ser diferente de hoje. E foi, durante mais sete meses. Um café que eu não repenso durante sete meses e talvez eu nunca pudesse sentir o teu cheiro, sentir a textura da tua pele e dos teus pelos, sentir o que eu sinto hoje que é essa ânsia de saber que tu existe e só. Hoje as nossas energias se completam para o bem. Não um bem, mas vários e inúmeros bens que são de puro amor.

Amanhã, meu amor, fazem oito meses do dia mais lindo da minha vida. Brigada!

06/10/2009

O porquê


Sama, brigada por ter me atendido naquela tarde. Brigada pela poção mágica que tu colocou no meu café, naquele domingo lindo de 15 de fevereiro. Brigada por me fazer gargalhar de felicidade em todos os momentos em que estou ao teu lado, menos quando estou te agarrando de amor. A cada dia, desde o nosso domingo, eu me sinto mais viva, mais feliz, mais pulsante, mais corajosa e mais verdadeira ao teu lado. Te amo.

20/05/2009

Esse é pra ti.



Tem coisas na vida que simplesmente não precisam de explicação.

O nervosismo, a ânsia, a náusea pelo medo e, ao mesmo tempo, pela aventura. É assim que começa. Porque o inicio, mesmo, foi na formação da blástula. Se caule, felogênio. A parte mais interna, mais densa do medo é também a mais pura.

Um cheiro de arco-íris em dia de chuva cansativa que não molha, fria que não refresca, um dia de verão sem calor. Nesses dias inertes surge o arco-íris. Nele, esse cheiro de vontade, de tesão, de amor – a melhor parte do amor – que nos deixa com medo.

– É o que eu sei fazer de melhor. É o que me faz esquecer dos outros problemas, meus, do mundo e até daqueles que eu desconheço.

Assim, bem dia-a-dia usual é o que eu mais amo fazer. Estar contigo, escrever, tocar, colocar letras com letras que juntas criam sentidos que só nós dois entendemos. É tirar notas, tons, acordes de garrafas de cerveja, inventar novas combinações, musicas, na dança dos dedos, das mãos, das bocas.

E tem umas horas em que simplesmente se sabe. – Eu sei, te disse. Acho que tu acreditou. Acho porque acho que é assim como eu, acredito em tudo que tu proferes. Qualquer guspe, vômito ou poesia que sair dali eu quero.

Quero que absolutamente tudo dê tão certo, que até disso tenho medo e suo amor. Medo do meu exagero de amor. O amor por tocar, a vontade de te tocar, tocar as letras, tocar sons palpáveis, medir sonhos e amores no ar.

Eu não sabia o que era amor. É muito mais do que eu pensava. É ter cheia de admiração as mesmas dores diarréicas por medo. Eu não sabia o que era ter medo. Agora eu sei: não vivo sem ti, sem a tua música, sem a tua presença, para que eu possa correr meus dedos sobre as letras e fazer a única coisa que sei, te (d)escrever.

É hoje!

02/04/2009

IOGURTE COM MACONHA

Degustei um perigoso bhang lassis
E me joguei nas águas de Pushkar
Onde Brahma deixou cair uma pétala
Da flor de lótus sobre a Terra

Não contei mais do que 900 deuses
E o camelo que comprei na feira
Por ter medo de avião
Negou-se a embarcar em Jaipur

AUGUSTO BIER em SERENATA PARA UMA JANELA FECHADA

11/03/2009

De novo.

"A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". (...) Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

09/03/2009

Chapter One

Tsá eu sei que é horrivelmente cedo para dizer isso, mas eu acho que encontrei a minha alma gêmea. De verdade. (Agora, além de cedo ficou imbecil.) A gente mente para si mesmo e para os coitados que nos cercam evocando essas vontades eternas de a-outra-metade-da-laranja e blábláblá e não atina que só está tentando completar um ciclo que simplesmente não existe. Depois ouvindo Queen Andreena pensa que ridxíííííícula eu disse para aquele bofe maníaco que ele era a minha alma gêmea? E se fosse? Foi mesmo na época mais maníaca da minha vida mesquinha. E ai você fica tentando e, obviamente, conseguindo encontrar todos os indícios de amor eterno entre dois psicopatas que possivelmente será eterno porque ocorrerá muito em breve um duplo assassinato, ou homicídio seguido por suicídio de um dos lados e pronto, vocês morreram juntos, a não ser que um deles fuja da morte, ou da sua alma gêmea, antes. Feliz eu, que o fiz. Veja só quanto amor. Sim. Coragem! Será alma gêmea sinônimo de morte?

E depois, um dia, caminhando na rua, descendo a ladeira de bicicleta de cestinha, azul, com banda branca nos pneus, com os cabelos ao vento, vestido floreado, esvoaçante, com as pernas tímidas de fora, ou então, quem sabe, escolhendo pêras no supermercado e pá. Ninguém pediu para você ir comprar pêras, cara! Você nem deveria SEQUER gostar de pêras, ou de livros, ou de CDs, ou de filmes, ou de descer ladeiras de bicicleta. Mas você estava ali escolhendo pêras ou, ou, ou, ou e a gente se viu. E agora não temos mais nada para fazer além de ficarmos nos olhando e olhando e olhando e olhando. Sabe? E só olhar não é o bastante, eu quero dançar, eu quero subir lombas bizarras, quero tomar chás, deitar de pés imundos na tua cama e te morder a noite inteira, eu quero viajar o mundo contigo, quero dançar tango na Argélia e dança do ventre (que cafona!) em Buenos Aires e eu tenho certeza que NUNCA, ninguém, JAMAIS, nenhuma só alma vivente neste globo efêmero e sujo – que continua azul – iria querer fazer isso comigo. Até te conhecer.

Chapter Two - Seg 09.03 – Daí o Vitor disse, não existe cedo, baby. Existe somente o tarde. Disse que antes de sermos almas perdidas procurando almas – parecidas ou não – somos almas apressadas. E essa pressa já não é mais uma moléstia da pós modernidade. Assim é melhor, é ótimo. Não deixe que fique tarde! E disse que para os que têm medo de assumir a pressa vão sobrar só a procura e a espera eterna por algo que talvez já tenha até passado.

E nem sei quando eu posso-devo-quero mandar. Porque é muito bom muito rápido muito como eu sempre quis que fosse. Daí depois fomos tomar um café ali no centro. Gente, o que é isso? Tu está certo. Não tem cedo. Também acho que não tem tempo.

Eu era a rainha de dizer que o tempo era só uma convenção. Isso se provou a primeira vez que ficamos juntos. Ou na primeira vez que transamos. Acho que ficou provado na primeira vez que nos vimos. E isso ele mesmo disse. Acho que é de outra vida isso, cara. Ou nossas almas já foderam no imaginário. E se apaixonaram.

03/03/2009

Cauda Longa

Voltando as aulas! Adoro!

“Não admira que os grandes sucessos sejam as lentes através das quais observamos nossa própria cultura. (...) No entanto, observe com um pouco mais de cuidado e você verá que este quadro, que emergiu como algo inédito com as emissoras de rádio e televisão do pós-guerra, está começando a desbotar nas margens. Os grandes sucessos, por incrível que pareça, já não arrasam quarteirões. O campeão é ainda campeão, mas as vendas daí resultantes perderam o viço do passado. (...) Mas para onde estão debandando aqueles consumidores volúveis, que corriam atrás do efêmero? Em vez de avançarem como manada numa única direção, eles agora se dispersam ao sabor dos ventos, à medida que o mercado se fragmenta em inúmeros nichos. A única grande área em crescimento acelerado é a Internet, mas nesse caso trata-se de um oceano sem categoria própria, com milhões de destinos, cada um desafiando, à sua maneira, a lógica convencional da mídia e do marketing."